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domingo, 20 de junho de 2010

Memorial de formação

“Para desenvolver o gosto nas crianças, é preciso que entrem em uma escola especial onde possam fazer aquilo que se faz com a química nos laboratórios. Elas devem ter máscaras, roupas o objetos para brincar. Elas devem ter móveis para decorar quartos no cenário. Os móveis devem ser de boa e má qualidade, as roupas de diferentes qualidades. Elas precisam ter blocos de construção com peças de épocas diferentes, entre as quais possam escolher. A partir de pequenos moldes devem aprender a planejar jardins e fazer arranjos com flores artificiais. Para a aula de música elas necessitam de gravadores, com fitas de trechos de obras musicais. Elas devem aprender a fotografar e a fazer composições, a moldar e a pintar potes de barro. Elas necessitam de tipografias para compor páginas de livros. De pastas com imagens Kitsch. Precisam ler poemas, e ouvir bons e maus oradores, em discos. Precisam de caixas com objetos de uso nobre, talheres, cartas de baralho.“ (Brecht, Bertolt - “Escola de Estética“).

Imaginem essa escola especial hoje em dia funcionando em nossa sociedade. Do período Pós Industrial aos dias de hoje, com o advento das tecnologias e o Ensino Tecnicista, prático, repetitivo e metódico, uma família que opta por um padrão de educação que não se encaixe aos “moldes do mercado”, como ouço por aí, seria no mínimo criticada e vista com maus olhos. “Perda de tempo, esse brincar”... Fui uma criança criada nos moldes esperados pela sociedade, porém fui criada com toda a liberdade de inventar, desenhar... Felizmente eu pude aproveitar desse brincar livre tão essencial nesse período da vida.

Vim de uma família de pai médico e mãe dona de boutique de roupas, que revezava seus afazeres com o dever de casa, a paixão pelo piano, livros, pintura... Eu me via nos anos oitenta entre discos de vinis de Rita Lee, The Who, Beatles e Elis... Os meus eram do Pluct Plact Zum!, Balão Mágico, Menudo e Turma da Mônica. Na prateleira de revistas, as adultas como a Revista Mad e Chiclete com Banana conviviam muito bem com meus gibizinhos e revistas infantis, para depois se harmonizarem com minhas Capricho, na adolescência. Nessa época, os programas prediletos de TV eram além da Turma da Xuxa, os episódios do Sítio do Pica-pau Amarelo, do Viva o Gordo e do humorístico de Chico Anísio.

O jardim de infância teve sua importância em minha memória, inclusive cívica, onde as fotos dos desfiles de 7 de setembro me remetem a um sentimento bom, patriótico, interessante, apesar da pouca idade que eu tinha. Era a Cirandinha, onde eu ainda podia exercer atividades, não apostiladas, como a pintura, a colagem, a massinha de modelar. Esse modelo do brincar pode ter seus dias contados, por sugestão do Senador Flávio Arns (o Senador pretende aprovar um projeto de lei obrigando o ingresso da criança com 5 anos no Ensino Fundamental, um verdadeiro atentado contra a infância!...).

Nos meus cinco anos de idade, nos mudamos para Liverpool, Inglaterra, por opção profissional do meu pai, que, antes da recessão que assolaria o país, resolveu se desfazer de tudo e recomeçar uma nova vida na terra da rainha, como num sopro de aventura e esperança. Tudo isso em 1982. Convivi em uma escola nos tradicionais moldes ingleses, de saia pregueada e gravata. O presente predileto da professora eram nossas bolas de neve, que ela guardava com cuidado na estante da sala de aula, sem derreter...

Voltamos, recomeçamos novamente aqui no Brasil e com um currículo turbinado pela Oxford, assisti à minha família passar os últimos anos do Regime Militar.  Em 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves vence as eleições para presidente da República do Brasil no Colégio Eleitoral, encerrando a ditadura militar no país. Entretanto, Tancredo morre e quem assume o cargo é José Sarney, seu vice. Lembro-me da cena do nosso povo aos prantos, inconformado com essa surpresa do destino. Estava na sala de casa e meus pais, boquiabertos, tentavam em vão explicar toda a situação à uma criança de apenas oito anos.

Mas o tempo ainda era de vacas gordas e logo em seguida demos uma guinada novamente. Era tão simples encher o tanque do carro, viajar de férias e passar um mês na praia, de pernas para o ar... Ganhar pencas de presente no Natal, que tinha mesas muito fartas e três empregadas: uma para a casa, uma para cozinha e uma babá.

Éramos duas irmãs, eu a primogênita, e em 1983 nasceu meu irmão, e a família cresceu um pouquinho mais. Da escola, o antigo Colégio Santo Antônio, tenho muitas lembranças, sempre boas e acolhedoras. Hoje, no mesmo prédio, o imenso e tradicionalíssimo colégio de freiras já não está tão gigante como parecia na época. Lá estuda minha filha de 11 anos e apesar do Sistema Objetivo de ensino ter acabado com o saudoso mimeógrafo, alguns professores continuam os mesmos da minha época. O afeto que tinham por mim foi automaticamente transferido para a minha filha, como fez a Tia Soninha e a Tiririca ao a adotarem com uma relação afetiva e verdadeira.

Mas o clima familiar e a escola como a extensão da minha casa hoje já não existe mais e a frieza para o preparo no ingresso da faculdade através do temido vestibular fez com que essa relação entre docentes e alunos desse uma bela esfriada. Entrei no Pré-primário da Tia Vânia com 6 anos e conclui o Ensino Fundamental aos 14 anos, a antiga oitava série, em 1991. O diretor na época era o famoso Sr. Hélio Mano, que fazia a meninada “tremer na base” com a sua famosa voz estrondosa, grave, firme e autoritária. Ficávamos em fila, todos no pátio, e um após o outro andávamos até a sala de aula, sem um pio. Das matérias que cursávamos apenas a de “Estudos Sociais” saiu do currículo. Cantávamos o hino uma vez por semana com o hasteamento da bandeira nacional e era dado um valor ao patriotismo que hoje anda tão esquecido. Em contrapartida a matéria que atualmente mais se aproxima desse papel de conscientização quanto às questões morais e sociais é a Filosofia, que minha filha adora. Em sala de aula, o professor brinca, cria jogos interativos, incentiva a colaboração e sai um pouco do padrão formatado pela escola. É a aula mais esperada da semana, onde eles sentem que “tudo pode” e os muros da escola parecem menos rígidos e concretos.  

Cursei o Ensino Médio de 1991 a 1993. Uma passagem marcante nessa fase foi minha participação com a escola do Desfile do dia da Independência de “cara pintada”, em 1992. O impeachment do Presidente Collor foi o primeiro ato político importante que presenciei. Em 93, a escolha do Plebiscito para Presidencialismo, Parlamentarismo e Monarquia também teve destaque em minha formação.

Passei no vestibular para Propaganda e Marketing durante o governo Itamar Franco. Mudei-me para São Paulo, onde cursei a ESPM e em 1994 conheci a Internet e o Plano Real. A inflação galopante teve seus dias contados após o plano, e a abertura econômica e o ajuste neolieral de FHC vindos da proposta de privatização seguraram o país de uma queda ainda mais brusca. As gôndolas dos supermercados agora dispunham de produtos importados, antes somente vistos no Paraguai, quando criança, em viagem com meus avós.

Com base no conceito de equidade social nos estudos produzidos pelos Organismos Internacionais ligados à ONU, o então presidente Fernando Henrique Cardoso, (1995-1998) através de uma política educacional do modelo de Estado Capitalista, defendeu a idéia de que a tarefa de assegurar a educação era de todos os setores da sociedade. Concordo plenamente, mas a sociedade não se engajou nessa tarefa e o Estado caminhou no sentido de redução no cumprimento de suas obrigações. A Educação Nacional caminha para a divisão de responsabilidades entre o Estado e a sociedade. A descentralização promoveu a municipalização da educação primária como forma de tirar a responsabilidade estatal com esse nível de ensino.

Dessa época, o eixo descentralizado e racionalizado articulou a municipalização do ensino e a criação do FUNDEF - Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental. Aos municípios foi repassada a responsabilidade com esse nível de ensino e pelo que tenho visto a Municipalidade ainda engatinha para um modelo ideal. Professores e monitores mal preparados não dão conta do número crescente de crianças, nascidas e desamparadas por uma sociedade que também não reconhece a importância da educação sexual de adolescentes e do planejamento familiar como medida de saúde básica.

Não teve saída: a crise veio e a recessão trouxe também o fim do desenvolvimento autônomo do Brasil, que se viu preso às decisões políticas do FMI e Banco Mundial. Formei-me em 1998, casei e tive a minha filha e tinha desespero em voltar a trabalhar na área, já que tinha voltado para a cidade dos meus pais e me via isolada, fora do eixo e o desemprego me assombrava. Já nos primeiros meses de vida da minha bebê fomos eu e seu pai trabalhar em São Paulo, novamente, mas a distância pesou mais do que a ansiedade da idade em me tornar independente.

Passaram-se dois anos e uma boa proposta de um site na área me fez mudar com babá e tudo de novo para a capital. A Internet foi fundamental nessa fase dela com 2 anos, pois trabalhava tempo no escritório, tempo nas Coletivas de Imprensa e consequentemente um tempo em casa,  atualizando os conteúdos on-line. Mudamos-nos para o Guarujá, num apartamento da família, onde atualizava as notícias da sala, com vista para o mar. Nessa época conheci a Pedagogia Waldorf através de uma amiga que viria a tornar-me sócia numa confecção de roupas um ano mais tarde, ao me desligar do AdVertica. No Jardim de Infância Alternativa tive a escola ideal, a meu ver, para o primeiro setênio da Júlia.

Viramos o século e 2001 foi marcante pela virada e pela “Crise do Apagão”.  Em 2002 fomos explorar a Europa, numa viagem onde vendemos muito, nos divertimos idem e vimos o Brasil Penta Campeão da COPA do Mundo de Futebol! Foi uma ótima fase, mas como todas, passou e meu desligamento da empresa se deu junto à separação de minha sócia, o que contribuiu para o desfecho da sociedade.

Em 2003 Lulla foi eleito Presidente e uma nova chance me aguardava em Ourinhos. A campanha do atual Prefeito da cidade me trouxe de voltas à terrinha. Fiz parte da equipe de marketing que deu a esmagadora vitória ao Prefeito e mais uma conquista profissional. Mas apesar de tudo, propaganda não era a “minha” alma do negócio. Nessa época comecei a cursar Pedagogia semi-presencial, onde reencontrei nossa atual Secretária de Cultura, na época minha ex professora de piano, no mesmo curso que eu. As águas passadas contribuíram para a então empossada Secretária me escolhesse como Diretora do Teatro Municipal Miguel Cury e me sugerisse ao cargo. Aliado ao sucesso da campanha e das boas relações que mantive na época, entrei para a atual equipe dos cargos de confiança.
Dois anos se passaram. O Prefeito foi reeleito em 2008 e com toda a mudança política, fui trocada de cargo, o que na época me deprimiu devido ao apego e aprendizado que tive na época. Enfim, a surpresa só me trouxe conquistas, descobertas e realizações profissionais. Por ironia do destino o que de começo me assombrou, hoje é a “menina dos olhos” meus. Fui nomeada para cuidar de um espaço da Prefeitura Municipal chamado Casinha da Esquina. A casa de gibis, revistas e jornais para troca e leitura, além de abrigar exposições e oficinas culturais, faz parte do Centro de Convivência, onde se encontra o Museu Pedagógico e Histórico de Ourinhos e o Espaço do Professor, atrelados à cultura e educação.
Participo ativamente agendando visitas de escolas e instituições como a APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), os CRAS (Centro de Referência de Assistência Social), o CAPS (Centro de Apoio Psicosocial), lar de meninos e abrigos infantis. Lá eu desenvolvo um trabalho com as crianças de contação de histórias, teatro de sombra, exibição de filmes curtas-metragens ou de alguma atividade artesanal, como o papel reciclado ou a oficina de Pin Hole (foto na lata).
Este ano a Secretaria de Cultura organizou ações em comemoração aos 90 anos de nascimento de Clarice Linspector, da qual estou tendo contato com a obra e me tornando sua fiel admiradora! Além de público espontâneo e de escolas e instituições, abrigamos a Oficina de Leitura “Para Ler o Mundo”, com a terceira idade, uma verdadeira escola para mim. A chance dessas senhoras de retomar sua cidadania, poderem fazer uma compra de mercado, pegar um ônibus com segurança, enfim, essa autonomia de realizarem coisas que parecem tão simples, mas que sem a leitura se tornam praticamente impossíveis, é um trabalho primoroso e muito importante.
Com todo esse universo de aprendizagem ao meu redor, retomei o contato com a Pedagogia Waldorf, e estou também estudando Antroposofia no Curso Livre em Fundamentação da Pedagogia Waldorf, em Jaguariúna, uma vez ao mês em regime de imersão, no Sítio das Fontes.  Acredito muito que todo o lado artístico, lúdico e puro que minha filha conserva ainda aos 11 anos tem raízes fortes de sua primeira infância no jardim Waldorf que a abrigou de maneira consciente e comprometida. Volto toda vez do meu curso inconformada com o conteúdo imposto que minha filha é obrigada a engolir todos os dias numa escola onde a matéria de ensino se restringe ao conhecimento mensurável da ciência objetiva. E sei que o ser humano é muito mais complexo do que isso, muito mais individual e especial do que somente um número na lista de chamadas do professor.

Hoje estou muito mais madura e preocupada com questões sociais e desigualdades que assolam o nosso país. Tivemos, sim, com o Presidente Lulla um aumento real no poder de compra do cidadão comum, mas apesar do “Bolsa Família”, do “Minha Casa, Minha Vida” e do “IPI zero”, não tivemos uma real melhora em nossa Educação nem uma política efetiva que tratasse nosso professorado com mais dignidade e preparo. Estamos somente aumentando nossa poluição sonora, física e mental.
Procurei a Pedagogia por aptidão, por vontade de “consertar” e conservar a educação da minha filha e pela vocação a qual me dedico de corpo e alma. Creio na formação continuada do educador no sentido reflexivo de sua própria arte no Ensino. Também credito a maturidade trazida no dia-a-dia em sala de aula se, e somente se, esse professor trabalhar em reflexão, com autodidatismo, sensibilidade e comprometimento.

Creio fazer um trabalho onde aprendo mais a cada dia, onde posso colaborar efetivamente na formação de brasileirinhos muitas vezes tão desamparados e órfãos. Órfãos de pai, mãe, ou educação, auto-estima, civilidade, amor... 


3 comentários:

Amanda & Meninas disse...

Uma miniautobiografia Nega?? Adorei ler tudo isso e saber de vc, da mulher bacana q se tornou. Orgulho de ser tua amiga e saudades enormes por estarmos separadas há tanto tempo. Beijo grande

UNI, DUNI, TÊ disse...

Querida amiga... que mãezona mais linda, carinhosa, presente, heim? Muita saudade e alegria em saber que mesmo de longe, estamos nos espiando por aqui mais de perto!!! Estou planejando para agosto uma ida à Sampa para iniciar a Jujú na Euritmia... e nos vermos, né? Te aviso mais perto, amiga... nao vejo a hora! Enorme beijo, mais triplo pras gatinhas da tia Jana ;)

Bianca Lanu disse...

Adorei! Belo texto... escreve bem hein Jana, praticamente uma historiadora! Sardade...